Os números mais recentes do mercado editorial brasileiro dizem muito sobre o país em que vivemos. Segundo a pesquisa Panorama do Consumo de Livros, divulgada pela Câmara Brasileira do Livro em parceria com a Nielsen BookData, o consumo de livros cresceu no Brasil em 2025. Cerca de 18% da população adulta comprou pelo menos um livro físico ou digital no último ano, o equivalente a aproximadamente 3 milhões de novos leitores.
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Mas o dado que mais chama atenção não é o crescimento da leitura. É quem está sustentando esse mercado: as mulheres representam 61% dos consumidores de livros no país.
E, sinceramente, isso não me surpreende nem um pouco.
Toda vez que vejo pesquisas assim, eu penso na mesma coisa: será que os homens realmente não gostam de livros ou eles foram ensinados a ter vergonha de gostar?
Porque basta olhar ao redor. Quem movimenta o BookTok? Quem transforma livros em fenômenos virais? Quem lota clubes de leitura, cria fanpages, faz teorias, recomenda romances e sustenta comunidades literárias inteiras na internet? Na maioria das vezes, mulheres. Principalmente mulheres jovens.
A própria pesquisa mostra crescimento entre leitores de 18 a 34 anos e destaca mulheres pretas e pardas da classe C como parte essencial desse público. Existe uma mudança acontecendo no mercado editorial, impulsionada por pessoas que antes talvez nem fossem vistas como protagonistas desse universo literário.
E eu acho isso muito simbólico.
A literatura sempre foi sobre emoção, identificação e sensibilidade. Sobre viver outras vidas sem sair do lugar. Só que, por algum motivo, muitos homens ainda crescem ouvindo que sentir demais é errado. Ler romance é “coisa de menina”. Gostar de histórias de amor é motivo de piada. Demonstrar emoção parece ameaçar uma masculinidade que vive tentando provar força o tempo inteiro.
Enquanto isso, mulheres foram encontrando nos livros um espaço de liberdade.
Talvez seja exatamente por isso que tantas leitoras se conectem tão profundamente com histórias. A leitura oferece algo que o mundo real vive tentando tirar das pessoas: a possibilidade de sentir sem vergonha. E eu acho triste que muitos homens acabem sendo afastados disso por pressão social.
É curioso perceber que existe incentivo para homens consumirem livros sobre produtividade, liderança, dinheiro ou performance, mas ainda há resistência quando o assunto é ficção, romance ou fantasia. Como se imaginar, sonhar ou se emocionar fosse perda de tempo.
Só que literatura nunca foi sobre utilidade imediata. Um livro não precisa ensinar a enriquecer para ter valor. Às vezes ele só faz alguém se sentir menos sozinho. E isso já muda tudo.
As redes sociais também tiveram um papel enorme nesse crescimento do mercado editorial. Segundo a pesquisa, mais da metade dos consumidores acompanha lançamentos e recomendações pela internet. O livro virou assunto de novo entre jovens, virou tendência estética, vídeo viral, comunidade. E, mais uma vez, quem puxou esse movimento foram mulheres.
No fundo, eu não acho que leitura seja “coisa de mulher”. Acho que mulheres apenas receberam mais liberdade para demonstrar interesse por aquilo que desperta emoção. Já muitos homens continuam presos a uma ideia ultrapassada de masculinidade que transforma sensibilidade em fraqueza.
E talvez seja exatamente aí que os livros assustem tanto.
Porque ler exige empatia. Exige imaginar outras perspectivas, encarar sentimentos e mergulhar em vulnerabilidades que muita gente passa a vida tentando esconder. Talvez por isso tantas pessoas prefiram parecer fortes a serem honestas consigo mesmas.
No fim, enquanto mulheres seguem liderando o mercado leitor brasileiro, eu fico pensando em quantos homens poderiam descobrir versões mais interessantes de si mesmos se parassem de tratar livros como ameaça.




