Do cigarro ao vape, nicotina mantém ciclo de dependência e ameaça saúde de jovens, alerta Afya Paraíba

Avanço da experimentação de dispositivos eletrônicos entre adolescentes reacende alerta sobre dependência e doenças associadas ao consumo de nicotina

Em alusão ao Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto, o consumo de nicotina volta ao centro do debate sobre saúde pública. Dados de inquéritos como LENAD, PENSE e Vigitel apontam que o tabagismo passou de 9,3% para 11,6% nos levantamentos mais recentes, após duas décadas de queda. O avanço dos cigarros eletrônicos, especialmente entre jovens, amplia o alerta.

Para a pneumologista Maria Enedina Scuarcialupi, professora da Afya Paraíba, preocupa o crescimento da experimentação do vape entre adolescentes a partir dos 13 anos e a continuidade do uso entre os 14 e 24 anos. Segundo ela, o cérebro ainda em desenvolvimento torna essa faixa etária mais vulnerável à dependência química.

“É um cenário assustador, porque o alvo dessa investida comercial é tornar o jovem um cliente dependente. Os jovens são neurologicamente e emocionalmente mais suscetíveis à dependência química, devido à neuroplasticidade de um cérebro ainda em formação e aos comportamentos próprios dessa fase da vida”, afirma.

Tanto o cigarro convencional quanto os dispositivos eletrônicos contêm substâncias associadas a doenças respiratórias, cardiovasculares e cânceres. Nos vapes, já foram identificados nicotina, nitrosaminas, metais pesados, propilenoglicol, anfetaminas, vitamina E e derivados de THC.

Além da dependência, a nicotina pode provocar lesões pulmonares, danos aos vasos sanguíneos, aumento da pressão arterial e alterações celulares. “Em qualquer forma de consumo, a nicotina pode provocar dependência e doenças, seja no cigarro, vape, snus, pouches, narguilé ou tabaco aquecido. Não existe nenhuma forma segura de fumar ou de consumir nicotina”, alerta a professora.

“Menos prejudicial? Jamais”

Os sais de nicotina presentes em muitos dispositivos eletrônicos apresentam maior potencial de dependência. Maria Enedina também chama atenção para a vitamina E, cuja inalação pode provocar inflamação, cicatrização e fibrose pulmonar, associadas à EVALI, condição que pode evoluir para casos graves.

“No vape, esses sais apresentam maior potencial para gerar dependência. A vitamina E, quando inalada, pode provocar inflamação, cicatrização e fibrose pulmonar, levando a um quadro de EVALI, que pode evoluir para casos graves e até à morte. Por isso, não podemos tratar esses produtos como alternativas de menor risco. Menos prejudicial, jamais”, destaca.

A pneumologista acrescenta que o consumo não oferece benefício capaz de compensar os riscos à saúde e avalia que a indústria do tabaco se beneficia da ampliação de consumidores dependentes de nicotina.

A estética dos dispositivos reduz a percepção de risco

A apresentação dos dispositivos também contribui para aproximá-los do público jovem. Cores, formatos semelhantes a pen drives, batons e frascos de perfume, cristais e sabores variados tornam os produtos mais atrativos e reduzem a percepção de risco.

Para a médica Maria Enedina, esse apelo encontra um público mais vulnerável, marcado pela busca de pertencimento, aceitação e experimentação, enquanto o cérebro ainda está em formação.

“Existe todo um apelo de marketing. Os dispositivos são coloridos, têm designs que lembram objetos cotidianos, como pen drive, batom e vidro de perfume, além de cristais, cores e sinais associados ao empoderamento e status. Também existem inúmeros sabores, não há o mau cheiro do cigarro, não existe aquela sensação de queimação na garganta e nem o gosto amargo”.

A combinação desses fatores favorece a experimentação e pode contribuir para a manutenção do consumo entre adolescentes e jovens, grupo especialmente suscetível à dependência química.

Os impactos vão além dos pulmões

Os efeitos da nicotina e das demais substâncias presentes nesses produtos atingem diferentes sistemas do organismo. Entre os riscos estão alterações nos vasos sanguíneos, danos celulares, aumento da pressão arterial e frequência cardíaca, infarto, AVC, bronquite crônica, enfisema e DPOC.

O consumo de nicotina está associado a cerca de 50 doenças. O cigarro convencional possui mais de 7 mil substâncias, enquanto o vape reúne mais de 2 mil, muitas delas capazes de desencadear processos inflamatórios e danos celulares.

“Isso altera os vasos, aumenta a pressão arterial e a frequência cardíaca e eleva o risco de infarto e AVC. Nos pulmões, as lesões nos brônquios e alvéolos podem provocar bronquite crônica, enfisema e DPOC. Além disso, o tabagismo reduz as defesas imunológicas e facilita que o indivíduo desenvolva doenças como a tuberculose”, alerta Maria Enedina.

O tabagismo também está relacionado a diferentes tipos de câncer, incluindo pulmão, boca, garganta, bexiga e mama. As substâncias do tabaco podem provocar alterações celulares e genéticas associadas ao desenvolvimento de tumores.

Parar de fumar exige tratamento e acompanhamento

A interrupção do consumo pode provocar sintomas como ansiedade, irritabilidade, insônia, tremores e sudorese. Além da dependência química, há o componente comportamental, ligado ao hábito de segurar o produto, levá-lo à boca e associá-lo a situações da rotina.

“Por isso, o tratamento precisa considerar tanto a dependência química quanto a comportamental. É importante ter um companheiro que acalme, compreenda e não julgue, além de uma abordagem psicológica cognitiva breve, que oriente sobre os malefícios de fumar, os benefícios de parar e as técnicas para superar a fissura e a abstinência”, explica Maria Enedina.

O tratamento pode incluir acompanhamento médico e psicológico, mudanças de hábitos, atividade física e, quando indicado, medicamentos e reposição de nicotina por meio de adesivos, gomas e pastilhas. O SUS oferece tratamento gratuito para a cessação do tabagismo.

No caso dos cigarros eletrônicos, ainda não há um plano terapêutico específico suficientemente estabelecido. A experiência acumulada no tratamento do tabagismo convencional, porém, pode orientar a abordagem e ajudar no controle da abstinência e na prevenção de recaídas. “O mais importante é procurar ajuda e entender que a dependência da nicotina é uma condição que pode e deve ser tratada”, afirma a profissional.

Afya Paraíba reforça ambientes livres de fumaça e vapor

A Afya Paraíba também adota medidas de proteção dos ambientes acadêmicos contra a exposição ao tabaco e aos dispositivos eletrônicos. A partir de uma orientação de Maria Enedina no período pós-pandemia de Covid-19, a instituição criou o selo “Proibido Fumar e Vaporar” nos ambientes da faculdade.

Parar de fumar nunca é tarde

O Dia Nacional de Combate ao Fumo, em 29 de agosto, destaca a importância da prevenção, do tratamento e do acesso à assistência para quem deseja abandonar a nicotina. Para Maria Enedina, os benefícios da cessação podem surgir rapidamente, independentemente do tempo de consumo.

“Parar de fumar nunca é tarde. Em cerca de uma semana, a pressão arterial e a frequência cardíaca já podem se normalizar e a respiração fica mais fácil. Mesmo para quem já desenvolveu um câncer, parar de fumar aumenta a possibilidade de responder ao tratamento. Portanto, sempre vale a pena parar”, conclui.

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